A casa era de cartas, media em torno de um metro e ficava bem no meio do quarto de Ana. Era separada por andares. O primeiro andar era composto pelos Ás, o segundo era composto pelos Dois, o terceiro pelos Três e assim sucessivamente. Os Valetes compunham o penúltimo andar, e os Reis compunham o topo da casa, o último andar. Era ali, naquela pequena casa de cartas, onde Ana achou um refúgio da dolorosa realidade.Ela passava horas e horas conversando com cada morador daquela pequena casa. Perguntava aos Valetes se eles não se entristeciam por saberem que nunca seriam Reis, já que os Reis atuais nunca morriam. Pois bem, eles explicavam que essa coisa toda de poder e status é coisa do nosso mundo, e que na casa de cartas não havia vantagem em ser Rei, nem em ser Valete, não havia diferença alguma entre ninguém. A única diferença é que os Reis eram os únicos que poderiam ser removidos da casa, simplesmente por serem do topo. Todos os outros, se fossem removidos, desmoronariam a casa inteira.
Conforme o tempo foi passando, ela se envolveu com cada morador quase absolutamente, e aprendeu a gostar de cada um deles pela simplicidade e pelo exemplo de vida harmoniosa que eles levavam. Mas acontece que, por ironia do destino, ela se apaixonou pelo Valete de Espadas. Claro que foi um amor inventado, assim como todos os outros amores de todas as outras pessoas do mundo, porém havia uma diferença, este era impossível. Não tinha como tirar o Valete dali, pois se fizesse, a casa inteira desmoronaria. Sendo assim, ela entristeceu. Não sabia se valia realmente a pena sacrificar seu velho refúgio assim, e simplesmente ignorar os outros cinqüenta e um moradores em troca de um amor que só ela entendia. Ana tinha apenas onze anos, e é bem difícil ter certeza de qualquer coisa nessa idade, e em qualquer outra idade, aliás.
Pois bem, depois de muito pensar, resolveu que tiraria sim o Valete de Espadas, e assim o fez. A casa foi desmoronando, carta por carta, alma por alma, lentamente. Ela enxergou todas as pessoas que ela tanto amava caindo, e não fez absolutamente nada. Seu amor era muito mais forte.
Depois de alguns segundos, olhou para todas aquelas cartas espalhadas no chão de seu quarto, e em suas mãos estava apenas o Valete, que com a morte de todos, se transformou em um Rei. Todas as paredes de seu quarto começaram a se transformar em cartas gigantes, cada uma de um jeito. Começaram também a se organizarem por andares. Ana era do antepenúltimo, junto com mais três Damas. Viu-se, sem querer, dentro de uma casa de cartas, que a qualquer momento desmoronaria. Trocou toda a segurança e o conforto do seu mundo, simplesmente por amor.




