quarta-feira, 15 de abril de 2009

A História de um Sonhador Incompleto

Sabe, já me acostumei com o jeito dele. O último dia que o vi sorrindo foi quando, bem, foi quando sua mãe morreu. É estranho alguém sorrir quando a mãe morre, mas ele realmente odiava sua mãe, e acho que foi porque ela o mandou pra droga de um colégio de freira, onde ele passou uns três ou quatro anos e logo depois foi expulso. Ele gritava com os professores, dava em cima das freiras e chamava o padre de bicha. Ele até chegou a engravidar uma freira uma vez, mas acho que Deus deu uma trégua pra eles e o feto caiu na água, quando ela estava sentada na privada. Essa freira era, de fato, eu mesma. E imagino que esse seja o principal motivo da gente ter sido expulso.
Logo depois de sair de lá, seu pai morreu. Ele não se importou muito não, porque odiava também seu pai, que não o dava atenção. Era um homem do exército e essas drogas todas, esses caras nunca têm tempo. Então ele fugiu de casa, e foi quando a gente resolveu morar junto. Arranjamos um emprego bem medíocre, mas pelo menos dava pra gente se manter.
Lembro que um dia ele apareceu em casa com um cachorro, daqueles bem pequenos, que ficam correndo e mijando pela casa toda. No fim ele o matou. Disse que o cachorro enchia o saco, e que não precisava de ninguém na casa além de mim. Eu tive que pegar o bichinho morto e enterrar lá no quintal. Mas nem me importei, não.
Às vezes a gente sai pra dar uma volta. Ele não é de sair muito, mas comigo ele gosta. Geralmente vamos pra algum lugar bem isolado, na beira de um lago ou qualquer coisa assim, onde ele costuma me contar as suas histórias. Ele disse que uma vez, quando ele era bem pequeno, uns sete ou oito anos, uma menininha da escola o convidou pra sua festinha de aniversário, que seria na casa dela. Depois de cortar o bolo, ele a chamou pra dentro de um armário, que era daqueles iguais aos dos Estados Unidos, que são grandes e embutidos na parede, enfim, foi isso que ele fez. Depois falou pra ela levantar o vestidinho, abaixar a calcinha, e o deixar passar a mão lá no lugarzinho dela. Pior de tudo é que ela deixou, e sem entender o que estavam fazendo, transaram dentro do armário. Mas eles nem sabiam o que era isso. Só fizeram, talvez, por puro instinto ou curiosidade infantil. Outra vez me contou como roubava dinheiro dos seus amiguinhos, que era pra comprar fitas de pornografia, charuto, ou qualquer coisa que fosse de gente grande. Na maioria das vezes era pra vender pelo triplo do preço para os mesmos amiguinhos dos quais ele havia roubado o dinheiro em primeiro lugar.
De qualquer forma, depois de um tempo na beira do lago a gente volta pra casa. Aprendi a ter o máximo de paciência com ele, porque gosto muito de sua companhia. Além do mais, tem dias que ele me abraça, diz que me ama, que sem mim ele não seria nada, e todas essas coisas assim. Ele não é assim por mal, não. Ele queria ser músico, poeta, ou escritor, mas por falta de sorte ou simples ironia, acabou por trabalhar na droga de uma loja de aspirador de pó. Vende algumas outras coisas lá também, mas o forte são os aspiradores de pó. Fica lá perto da Av. Paulista, o lugar onde ele trabalha. O que eu quero dizer, é que eu tenho esperança de que um dia ele seja finalmente quem ele quer. Ainda é cedo, e muito cedo. Um dia a gente chega lá, e quando a gente chegar, eu prometo contar como foi.

17 comentários:

  1. Cara, muito bom. Gostei demais.
    Por mais que tudo pareça perdido, sempre resta um pouquinho de esperança né?

    Vai ser bom fazer uma parceria com vc, já está linkado.

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  2. Goostei LUCAS! :)

    É o jeitinho de alguns brasileiros sem oportunidade pra conquistar o sucesso naquilo que mais quer realmente ser!

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  3. eeei, me prendeu bastante, me parece com dalton trevisan que escreve coisas sujas hahaha

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  4. Odeio xeretar blog alheio, mas te vi no blog da garota do casaco verde e adorei seu texto.

    Leio como se estivesse contando a história de uma pessoa que conheço..

    Beijos =D
    Te seguirei.

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  5. É, eu estou quase procurando uma ponte assim pra chegar até onde quero. Na verdade, todas as coisas têm me empurrado pra isso, mas estou demorando pra ceder...

    Vou te seguir.

    Até.

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  6. Bahhh como dizem lá no sul me caiu os butia do bolso, muito bom teu texto, parabens adorei, sabe, nem sei como dizer, só que vou vir mais vezes pode??
    beijos

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  7. muuuito bom! adorei o blog!
    obrigada pela visita.

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  8. gostei muito, sua forma de narrar é bem legal...

    bjs :*

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  9. Nós sempre temos a esperança de algo. E o importante é que ela nunca desapareça.

    Não importa se as emoções são para momentos dentro-de-um-guarda-roupas-norte-americado, o importante é que transbordem.

    Um beijo,
    www.lizziepohlmann.com

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  10. Em toda a história sabe de quem eu senti da pena? Do coitado do cachorro! Ele não merecia esse final trágico. kkk! A sua narrativa é belíssima quando fecha com chave de ouro retratando a esperança! (que eu tenho esperança de que um dia ele seja finalmente quem ele quer...) mesmo com toda a desgraça, precisamos acreditar que existe uma esperança. Só que não procura eu correr atrás dessa esperança, pra vê se ela vai existi ou fazer efeito em meu viver!

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  11. Lucas Vallim, você escreve muito bem, parabéns!
    Seu texto 'só' e 'Idéia para um livro' ficou muito do....
    Você joga rpg?
    A foto do 'ideia para um livro' ficou ótima.
    Estou pagado psicopatologia I na faculdade e estou entendendo mais sobre o mundo dos psicopatológicos e me identificando.

    Saudações

    o poeta morto

    Já esta na minha lista!

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  12. Lembrou-me alguns contos do velho Buk, com a diferença que aqui a história é contada por uma mulher, o que confere um ar diferente.
    Acho que podias fazer uma série de contos a partir desses dois personagens. Ficaria interessante...
    Abraço.

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  13. Sempre mandando bem nos textos ! Achei ótimo !!!!
    Poxa vida,não era ele o errado,mas quem entrava na onda dele ! risos
    Abração !

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  14. casal estranho :), da hora ^^, dali criatividade hem ... rs,rs,sr, ficou massa, flww

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  15. e o aspirador de pó novamente.

    eu vi um filme que o cara trabalha numa loja de aspiradores de pó. e ele tenta ser musico e buscar a felicidade.

    me fez lembrar enquanto lia.

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  16. Foto de Alba Luna
    Estava em falta, não?

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