
Eu era bem pequeno, e nem me importava muito (quando a gente é pequeno a gente não se importa com nada), mas naquela vez eu me importei, pois era a primeira vez, em toda a minha vida, que eu estava chorando com sinceridade. Sabe, todas as crianças choram, talvez por que chega a hora de ir pra casa justo quando a brincadeira está no auge do divertimento, ou talvez por que alguém lhes roubam os doces prediletos, ou qualquer coisa assim. A solução, pra o que quer que seja o problema na infância, é simplesmente chorar. Algumas vezes isso funciona, sim, mas na maioria das vezes simplesmente voltam pra casa, chorando ou não. No meu caso era diferente. Não estava chorando porque eu ia voltar pra casa, muito menos por terem roubado de mim algum doce. Estava chorando porque tinha caído. Já havia caído diversas outras vezes, mas nada tinha sido tão sério. Olhei meu braço direito, e ele estava um pouco diferente, eu sentia como se houvessem milhares de cordas dentro do meu braço e elas estivessem sendo esticadas com a maior força possível, aquilo doía.
Sem saber o que fazer diante daquela situação, chorei. E foi o choro mais sincero da minha vida, cada intervalo-para-tomar-folego-para-gritar-de-novo era uma preparação para um grito, um grito de "Socorro! Estou morrendo! Me ajudem!", embora eu não estivesse morrendo, nem dizendo palavra alguma, simplesmente gritando. Pra uma criança, que mal sabe o que é viver, qualquer coisa muito diferente disso - de viver - passa a ser um motivo para pensar "Eu estou morrendo". No fim deu que uma moça, muito simpática por sinal, me acudiu e me levou pra um hospital próximo dali. Era uma simples torção, mas para mim, que nunca havia sentido dor alguma, aquela era a pior dor do mundo.
Teve também o ocorrido do dente, quando eu estava com onze anos. Uma vez me olhei no espelho, e estava saindo da minha boca umas coisinhas brancas, que alguns chamavam de pus, ou qualquer coisa assim. Era estranho, mas não era minha culpa, eu não tinha feito nada pra que minha boca tivesse se transformado naquilo tudo. As gengivas, de vermelhas, já estavam passando pra alguma outra cor indefinida, e eu sentia latejar, como se minhas gengivas estivessem enormes, talvez com uns dez metros de largura. Cada vez que meu coração pulsava, a gengiva latejava. Era impressionante e incrivelmente horrível.
Sentia cada gota de sangue passando por entre as veias de minha boca inteira, como se elas, as gotas, tivessem braços e unhas afiadíssimas, rasgando minha boca inteira conforme elas iam nadando por entre minhas veias. Não dava mais pra aguentar, já tinha gritado quase tudo de voz que eu tinha, e sempre guardava um pouco pra depois.
Uma faca estava na pia do banheiro, bem embaixo do espelho, porque eu já tinha pensado na hipótese antes, quando a dor estava bem no começo. Mas a dor piorou muito, e a idéia estava muito forte, quase incontrolável, mas eu ainda conseguia aguentar.
Sentia que meus dentes estavam se soltando, como se o tempo todo estivessem colados por uma cola, bem em meu crânio, e aos poucos a cola estivesse apodrecendo, e eu sentia dente por dente descolando, amolecendo, e descolando mais, e quase caindo. Mas isso, de fato, nunca chegou a acontecer.
Comecei a andar compulsivamente com um espelho de bolso, pra conferir se os dentes não estavam caindo de verdade. Conferia a cada cinco minutos, mas aparentemente sempre estava tudo normal, nada estava estranho.
Aguentei um pouco mais, e finalmente desisti. A dor já estava impossível. Peguei aquela faca, que ainda estava na pia do banheiro, e posicionei a ponta bem no meio do meu dente, de onde estava vindo a dor mais forte. Bati com força, e numa questão de segundos, voou sangue pra todos os lados, junto com o dente. A dor passou na hora.
Conforme fui crescendo e amadurecendo percebi que, além de dores físicas, existem, para o nosso desespero, as dores emocionais. E foi dessas que eu mais sofri. Os sentimentos começam a tomar vida própria quando os primeiros pelos começam a aparecer pelo corpo da gente. Lembro bem dessa época, que eu entrava no banho e começava a lembrar das garotinhas do colégio, especificamente da Júlia, e assim ficava uns quarenta minutos "tomando banho". Foi também por esses tempos que, por acaso, essa Júlia não me dava atenção. Cheguei a levar flores em sua casa (que coisa idiota), mas quando cheguei lá o meu melhor amigo (Por coincidência, Júlio) já havia chegado, também estava com flores. Lembrei do braço, e do dente, e vi que aquela dor que estava no meu peito era maior que qualquer uma que eu já havia sentido antes. Estranho é que eu consegui me controlar. Joguei as flores no lixo e caminhei de volta pra casa. No caminho ocorreu tudo bem, parei numa praça pra olhar um pouco pro céu (não sei o motivo, só me deu vontade), e depois de um tempinho assim voltei pra casa.
O problema começou à partir desse ponto. Toda vez que entrava em casa e me via sozinho, me batia um desespero impossível, e não havia moças simpáticas para me levar pro hospital, muito menos facas para eu arrancar toda minha dor à força. Eu, com minha imatura noção de romance, só tinha a mim mesmo, e não sabia o que fazer. Me afundava em choros e gritos abafados pelo meu travesseiro - Eu gostava daquele travesseiro, ele possibilitou a minha privacidade. Poderia gritar à vontade, desde que eu estivesse com a cara socada nele.
Pior ainda era no colégio, onde eu era obrigado a ver Júlio e Júlia de mãos dadas, feito dois pombinhos imbecís. Eles saíam sorridentes, andando lentamente e parecendo estar no mundo da lua, flutuando por entre as nuvens idiotas do amor. Amor, bela piada. Eu não sabia mais se eu sentia raiva ou tristeza. Esses dois sentimentos, em excesso, parecem ser exatamente a mesma coisa, e era assim que eu me sentia, triste-com-raiva.
Passou algum tempo, talvez uns dois ou três meses (o que pra mim foi uma eternidade), e eu fui me esquecendo. Na verdade não era se esquecer, e sim se conformar com o lixo por qual eu estava passando. Continuava tomando banhos de quarenta minutos, e continuava afundando a cara no travesseiro, mas os gritos eram menos frequentes, e o pensamento no banho não era sempre direcionado a Júlia. Além disso, passei a não reparar mais no estúpido romance de Júlio e Júlia (Até o nome combinava, desgraçados), e foi bem aí que tudo me deixou mais triste-com-raiva ainda. Como não estava mais reparando nos dois, não tinha percebido que eles não estavam mais juntos.
Júlia, talvez por pura pirraça, veio falar comigo no colégio, e disse que o tempo todo ela estava com Júlio pra causar ciúmes em mim, e que na verdade o garoto por qual ela sempre esteve apaixonada era, de fato, eu mesmo. Era uma boa notícia, mas eu não consigo definir se isso era pra ter me deixado feliz ou mais triste-com-raiva ainda. O que deu foi que não fiquei nem de um jeito nem de outro. Ao ouvir aquelas declarações idiotas, depois de tanto tempo de sofrimento e desespero, virei as costas e fui embora. Assim, sem mais nem menos. Admito que fiquei arrependido por uns tempos, na verdade por muitos anos eu pensei em voltar pra ela, levar flores, e dizer que sempre a quis pra mim, e um dia, resolvi que era isso que eu iria fazer.
Saí de casa, com minha melhor roupa, entrei no meu carro (Já tinha carro, pois já havia passado muito tempo da época do colégio), passei em uma barraca de flores para comprar a mais bonita delas, e comprei. Era uma Jasmim, meio branco, meio rosa, linda. Resolvi parar o carro duas ruas pra trás, para chegar caminhando em sua casa, recordando os velhos tempos, e tudo mais. Mas acontece que quando cheguei, Júlio já havia chegado primeiro, e também com Flores. A única diferença era o Jaguar, que comparado ao meu humilde Ford, era um carro impecável. Sinceramente, eu já esperava que isso acontecesse, e tinha ido pra lá psicologicamente preparado para qualquer coisa desse tipo. Mas pela minha imatura noção de romance, não adiantou, e só senti as consequências quando me vi sozinho, perto do travesseiro.
Sem saber o que fazer diante daquela situação, chorei. E foi o choro mais sincero da minha vida, cada intervalo-para-tomar-folego-para-gritar-de-novo era uma preparação para um grito, um grito de "Socorro! Estou morrendo! Me ajudem!", embora eu não estivesse morrendo, nem dizendo palavra alguma, simplesmente gritando. Pra uma criança, que mal sabe o que é viver, qualquer coisa muito diferente disso - de viver - passa a ser um motivo para pensar "Eu estou morrendo". No fim deu que uma moça, muito simpática por sinal, me acudiu e me levou pra um hospital próximo dali. Era uma simples torção, mas para mim, que nunca havia sentido dor alguma, aquela era a pior dor do mundo.
Teve também o ocorrido do dente, quando eu estava com onze anos. Uma vez me olhei no espelho, e estava saindo da minha boca umas coisinhas brancas, que alguns chamavam de pus, ou qualquer coisa assim. Era estranho, mas não era minha culpa, eu não tinha feito nada pra que minha boca tivesse se transformado naquilo tudo. As gengivas, de vermelhas, já estavam passando pra alguma outra cor indefinida, e eu sentia latejar, como se minhas gengivas estivessem enormes, talvez com uns dez metros de largura. Cada vez que meu coração pulsava, a gengiva latejava. Era impressionante e incrivelmente horrível.
Sentia cada gota de sangue passando por entre as veias de minha boca inteira, como se elas, as gotas, tivessem braços e unhas afiadíssimas, rasgando minha boca inteira conforme elas iam nadando por entre minhas veias. Não dava mais pra aguentar, já tinha gritado quase tudo de voz que eu tinha, e sempre guardava um pouco pra depois.
Uma faca estava na pia do banheiro, bem embaixo do espelho, porque eu já tinha pensado na hipótese antes, quando a dor estava bem no começo. Mas a dor piorou muito, e a idéia estava muito forte, quase incontrolável, mas eu ainda conseguia aguentar.
Sentia que meus dentes estavam se soltando, como se o tempo todo estivessem colados por uma cola, bem em meu crânio, e aos poucos a cola estivesse apodrecendo, e eu sentia dente por dente descolando, amolecendo, e descolando mais, e quase caindo. Mas isso, de fato, nunca chegou a acontecer.
Comecei a andar compulsivamente com um espelho de bolso, pra conferir se os dentes não estavam caindo de verdade. Conferia a cada cinco minutos, mas aparentemente sempre estava tudo normal, nada estava estranho.
Aguentei um pouco mais, e finalmente desisti. A dor já estava impossível. Peguei aquela faca, que ainda estava na pia do banheiro, e posicionei a ponta bem no meio do meu dente, de onde estava vindo a dor mais forte. Bati com força, e numa questão de segundos, voou sangue pra todos os lados, junto com o dente. A dor passou na hora.
Conforme fui crescendo e amadurecendo percebi que, além de dores físicas, existem, para o nosso desespero, as dores emocionais. E foi dessas que eu mais sofri. Os sentimentos começam a tomar vida própria quando os primeiros pelos começam a aparecer pelo corpo da gente. Lembro bem dessa época, que eu entrava no banho e começava a lembrar das garotinhas do colégio, especificamente da Júlia, e assim ficava uns quarenta minutos "tomando banho". Foi também por esses tempos que, por acaso, essa Júlia não me dava atenção. Cheguei a levar flores em sua casa (que coisa idiota), mas quando cheguei lá o meu melhor amigo (Por coincidência, Júlio) já havia chegado, também estava com flores. Lembrei do braço, e do dente, e vi que aquela dor que estava no meu peito era maior que qualquer uma que eu já havia sentido antes. Estranho é que eu consegui me controlar. Joguei as flores no lixo e caminhei de volta pra casa. No caminho ocorreu tudo bem, parei numa praça pra olhar um pouco pro céu (não sei o motivo, só me deu vontade), e depois de um tempinho assim voltei pra casa.
O problema começou à partir desse ponto. Toda vez que entrava em casa e me via sozinho, me batia um desespero impossível, e não havia moças simpáticas para me levar pro hospital, muito menos facas para eu arrancar toda minha dor à força. Eu, com minha imatura noção de romance, só tinha a mim mesmo, e não sabia o que fazer. Me afundava em choros e gritos abafados pelo meu travesseiro - Eu gostava daquele travesseiro, ele possibilitou a minha privacidade. Poderia gritar à vontade, desde que eu estivesse com a cara socada nele.
Pior ainda era no colégio, onde eu era obrigado a ver Júlio e Júlia de mãos dadas, feito dois pombinhos imbecís. Eles saíam sorridentes, andando lentamente e parecendo estar no mundo da lua, flutuando por entre as nuvens idiotas do amor. Amor, bela piada. Eu não sabia mais se eu sentia raiva ou tristeza. Esses dois sentimentos, em excesso, parecem ser exatamente a mesma coisa, e era assim que eu me sentia, triste-com-raiva.
Passou algum tempo, talvez uns dois ou três meses (o que pra mim foi uma eternidade), e eu fui me esquecendo. Na verdade não era se esquecer, e sim se conformar com o lixo por qual eu estava passando. Continuava tomando banhos de quarenta minutos, e continuava afundando a cara no travesseiro, mas os gritos eram menos frequentes, e o pensamento no banho não era sempre direcionado a Júlia. Além disso, passei a não reparar mais no estúpido romance de Júlio e Júlia (Até o nome combinava, desgraçados), e foi bem aí que tudo me deixou mais triste-com-raiva ainda. Como não estava mais reparando nos dois, não tinha percebido que eles não estavam mais juntos.
Júlia, talvez por pura pirraça, veio falar comigo no colégio, e disse que o tempo todo ela estava com Júlio pra causar ciúmes em mim, e que na verdade o garoto por qual ela sempre esteve apaixonada era, de fato, eu mesmo. Era uma boa notícia, mas eu não consigo definir se isso era pra ter me deixado feliz ou mais triste-com-raiva ainda. O que deu foi que não fiquei nem de um jeito nem de outro. Ao ouvir aquelas declarações idiotas, depois de tanto tempo de sofrimento e desespero, virei as costas e fui embora. Assim, sem mais nem menos. Admito que fiquei arrependido por uns tempos, na verdade por muitos anos eu pensei em voltar pra ela, levar flores, e dizer que sempre a quis pra mim, e um dia, resolvi que era isso que eu iria fazer.
Saí de casa, com minha melhor roupa, entrei no meu carro (Já tinha carro, pois já havia passado muito tempo da época do colégio), passei em uma barraca de flores para comprar a mais bonita delas, e comprei. Era uma Jasmim, meio branco, meio rosa, linda. Resolvi parar o carro duas ruas pra trás, para chegar caminhando em sua casa, recordando os velhos tempos, e tudo mais. Mas acontece que quando cheguei, Júlio já havia chegado primeiro, e também com Flores. A única diferença era o Jaguar, que comparado ao meu humilde Ford, era um carro impecável. Sinceramente, eu já esperava que isso acontecesse, e tinha ido pra lá psicologicamente preparado para qualquer coisa desse tipo. Mas pela minha imatura noção de romance, não adiantou, e só senti as consequências quando me vi sozinho, perto do travesseiro.





