
...Avistou pela janela o vulto sem ginga no meio da multidão, andando de mãos no bolso e ficando cada vez mais longe, pequeno, pequeno. Não devia ter feito isso, pensou. Pensou e ignorou...
Infância
Reunião de amigos, festa de aniversário e todos as pessoas do colégio foram convidadas. A garrafa girava, lenta, no chão de madeira pertencente ao quarto de Ana.
– Verdade ou desafio? – Ana perguntou a Maurício, após a garrafa ter parado com o fundo apontado para ela e a boca para ele.
– Desafio. – Ele disse, com o típico nervosismo infantil, pertencente a um garoto introvertido, quase sem amigos, se não fossem aqueles.
– Finalmente um desafio... Vá para a garagem, você e Beatriz, fiquem lá por no mínimo dez minutos. Detalhe: Com as luzes apagadas.
E da roda de amigos levantaram-se Beatriz e Maurício, andando em direção à escada dos fundos, que dava para a garagem. As duas crianças, ditas crianças, onze-doze anos, cujos interesses eram apenas de diversão e não tinham ainda idade para o amor, e talvez ninguem de fato tenha. Nunca. Desceram as escadas sem palavras, e o nervosismo de Maurício já estava o causando tremedeiras, assim, de um jeito como qualquer outro garoto de sua idade ficaria. Beatriz já não estava tão nervosa, não por fora, embora por dentro estivesse quase explodindo de desespero, sem saber exatamente o que fazer.
– E estamos aqui... – Ela disse, já na garagem.
– P...pois é. – Ele respondeu, gaguejando, ainda tremendo.
– Hum...
– Bem... Eu nunca... – Numa tentativa de dizer que nunca havia, como dizem, beijado.
E foi quando os dois ficaram em silêncio, até que, num movimento quase intacto, as cabeças foram se aproximando, num tom de dúvida, indo e não indo, e daí o beijo. Não que fosse um beijo de fato, mas sim um encosto de lábios que, quando crianças, as pessoas costumam chamar de beijo. Sem fechar os olhos, sem abraços e sem ternuras. Apenas um encosto de lábios, encosto aquele que rendeu a Maurício ao menos um mês de pensamentos alheios, no banho ou na cama, antes de dormir, enquanto explorava seu corpo, sem que enjoasse da cena do rosto de Beatriz e da textura de seus lábios.
Adolescência
A roda de amigos cercando a mesa de centro, que carregava em si as carreiras, as brancas, das quais são inaladas como alguma coisa qualquer, comida ou sexo, num ritual místico de entorpecimentos. Garotos e garotas se divertindo, os que não conseguem ainda tentando, ao som do blues americano, que era para o clima, como diziam. Dessa vez Jimmy Hendrix, Red House, após Ana, Maurício, Ricardo e Betinha terem entrado no ritual.
– É tua vez, Beatriz. – Ana disse, apontando para o amontoado de pó branco exposto à mesa.
– É que eu nunca...
– Sem essa... larga de frescura.
Ajeitou os cabelos vermelhos, posicionou-os atrás das orelhas, e ainda segurando-os, ela abaixou a cabeça, unindo-se ao ritual. Inspire tudo, ouviu alguem dizer, e assim o fez. De repente já não estava mais ali. Como um orgasmo vindo nos pés para a cabeça, não necessariamente nessa ordem, ela repentinamente deixou de se importar com qualquer outra coisa no momento. Olhou as pessoas na sala de estar, todas elas, dezessete anos, alguns talvez dezoito-dezenove, uma a uma, olhou sem de fato olhar, apenas percebendo as imagens, como um cinema mudo ou psicodélico. Sentiu uma mão em sua nuca e não se importou. A mão desceu pelos peitos, talvez houvesse tido algum toque nas pernas, já não se importava. Ela cedia.
– Vem aqui garota – Ana disse, sussurrando em seus ouvidos – vem que eu quero te mostrar uma coisa.
Foi guiada até um cômodo que deduziu ser o quarto da casa, talvez pertencente à Ana, já não sabia mais, embora fosse o mesmo onde havia estado a alguns anos atrás – Maurício, a garagem –. Foi deitada na cama de lençóis vermelhos. Não que estivesse inconsciente ou inabilitada para ser guiada dessa maneira, mas estava num estado tão agradável e distante que não mais conseguia se importar com alguma coisa. Ana já por cima de seu corpo, ainda movendo lentamente as mãos pela sua barriga, fazendo com que a camiseta levantasse e a roupa íntima ficasse exposta. A pele era branca, e os peitos ainda mais, foi ver depois.
– Você gosta? – Sussurrou novamente, e Beatriz, sem pensar, talvez porque já soubesse, fez que sim com a cabeça, já de olhos fechados.
As roupas foram removidas, uma a uma, primeiro a camiseta, precedido da calça jeans, as roupas íntimas, primeiro a de cima, depois a de baixo, até que ela se encontrou nua, junto com a outra, também nua, as pernas abertas, os dedos de Ana entrando e saindo e os beijos ainda no pescoço, sempre por parte de Ana e nunca por parte de Beatriz, que apenas cedia mais e mais, e depois a boca de Ana por entre suas pernas, que estavam já abertas ao máximo, mesmo ela tentando abri-las ainda mais, até que, em alguns minutos, talvez quinze-vinte minutos, já não sabia, a porta do quarto se abriu e houve algum outro corpo, talvez Maurício, talvez Ricardo, que começou a penetrá-la, após te-la acariciado, e ela não mais se importava, enquanto Ana delicadamente acariciava ambos os corpos, a dança, a dança, a dança, a música na sala, o sexo no quarto. Ainda houve alguma dor, talvez bem de fundo, quase imperceptível, uma dor até quase agradável, talvez agradável ao juntar-se com as outras sensações, a do suor, os hálitos de cigarro de cereja, os restos de cocaína que incomodavam o nariz, já dormente, o gosto amargo descendo do nariz pela garganta, as penetrações, de dedo e de sexo, o calor, o cheiro, e por fim o sangue, sinal da agora impureza, que definitivamente ela não se importava em carregar, e então os líquidos, os vindos de Ana e o outro masculino, branco, precedido do sono, o sono pesado que durou até a manhã seguinte.
Maturidade
As brincadeiras de garrafas já haviam virado jogatinas na noite em uma esquina qualquer, e a cocaína não lhe servia mais para nada, o que fez com que as agulhas de heroína a penetrassem agora em qualquer veia que fosse possível, talvez axilas, ou quaisquer lugares que não fossem expostos aos clientes, o que faria o preço abaixar. Setenta e seis reais por noite, sem sexos adicionais, e sem contar as outras taxas. Não que ela contasse que fosse de programa, assim, de repente. Deixava isso para o final, já que sabia escolher bem, conhecia de todos os tipos.
– Whisky, por favor, daquele ali, o Ballantine´s. – O homem disse à atendente, enquanto estava sentado no banco alto, o cotovelo apoiado no balcão.
– Aqui está, senhor.
Do outro lado as duas, Ana e Beatriz, juntas, na noite fria de São Paulo, barzinho qualquer, para os lados da Augusta, não exatamente ali, olhavam naquela direção, reparando o homem de jaqueta preta no balcão, ainda sozinho, esperando alguma coisa acontecer.
– O que você acha daquele ali? – Ana perguntou, apontando o homem.
– É... aquele parece bom...
– Claro que é bom. – Ana disse, antes de ficar alguns instantes em silêncio – Talvez você devesse tentar....
– É...
– Mas não faça parecer artificial.
– Sim... está bem, vou tentar...
E foi quando ela andou em direção ao homem. Os saltos altos, a saia vermelha que cobria sua nudez, diretamente, não vestia roupas íntimas. A blusa curta, parte dos peitos à mostra, não tudo, rendia mais dinheiro. Desviou de um grupo de rapazes que estavam jogando poker na mesa verde do canto, continuou. E lá vou eu de novo, pensou. Talvez estivesse cansada, talvez não, poderia ser só tristeza, descaso, já não mais sabia. Sentou no banco ao lado do homem. Acho que estou sendo casual, pensou novamente.
– Me vê um Martini, por favor. – Disse à atendente, enquanto arrumava os cabelos vermelhos. Reparou no pulso do homem. Seria Rolex, Mont Blac?, pensou.
– Aqui está. – A moça disse, após preparar a bebida.
Deu um gole e cruzou as pernas, esperando alguma atitude do homem, até que, finalmente, o escutou:
– Olá. – Ele disse.
– Oi... – Respondeu, olhando para o outro lado, cabeça parcialmente erguida, fingindo desinteresse.
– Eu sei o que você faz.
Como um susto, ela olhou para o rosto do homem de repente, surpresa.
– O que foi que disse?
– Você. Eu sei o que você faz.
– Sabe?
– Sei... já está estampado bem em seu rosto, e eu vou direto ao assunto.
Acho que eu não fui casual, ela pensou.
– É... é que...
– Eu quero que você seja casual, coisa que até agora você não conseguiu. Mas escuta bem, essa casualidade vai depender bem mais de mim do que de você.
– Não consegui mesmo?
– Eu já logo percebi, você e tua amiga olhando para cá, apontando, imaginei que uma das duas iria vir. Mas escuta, não é esse o ponto. Já que quer casualidade, eu te pago e você faz o que eu quero, está bem?
– S... sim... está bem – Disse, já perdida, sem saber exatamente como agir.
– Eu quero que você me dê seu endereço.
– Como assim, meu endereço?
– O lugar onde você mora.
– E você espera que eu passe meu endereço, assim, para qualquer um?
– Tome. – Tirou do bolso um pequeno bolo de notas, contou duzentos e cinquenta reais, a entregou – Eu te pago metade antecipado, agora.
– Bem... é que não é exatamente isso o que eu faço. – Disse, após ter aceitado o dinheiro.
– Pois então faça... quer mais? – Retirou mais cem reais, estendeu a mão esperando que ela pegasse. E pegou.
– Tudo bem... – Ele não deve ser qualquer um, tem muito dinheiro, pensou. – Diga o que quer que eu faça.
– Eu quero casualidade. Se nunca o fez antes, faça disso um ensaio.
– Um ensaio sobre a casualidade?
– Nomeie-o como quiser. O fato é que eu quero entrar em tua casa, sem que você saiba, como um estranho.
– Sim... e?
– E você faça as tuas rotinas normais do dia-a-dia. Vou aparecer a qualquer momento, provavelmente à tarde, e você não vai interromper nenhuma de minhas atitudes quando eu já estiver lá.
– Acho que posso fazer isso...
– Uma última coisa: Deixe a porta destrancada, vou entrar sem avisar.
– Bem... é que... – Ficou em silêncio por alguns segundos, pensativa. – Está bem, está bem. – Retirou da bolsa um pedaço de papel e uma caneta, anotou o endereço e o entregou. – Está aqui. Amanhã, correto?
O homem deixou o dinheiro da bebida no balcão, levantou e partiu, sem responder e sem se despedir.
Ensaio Sobre a Casualidade
Ele abriu a porta, quase não abrindo, devagar, e ainda enquanto estava entreaberta, olhou o lado de dentro da casa e avistou-a de costas, Beatriz, semi-nua, lavando alguns pratos e copos sujos que repousavam em cima da pia. Preocupava-se principalmente em não fazer barulho, e então caminhava lento, quase parando, como um assassino prestes a esfaquear a vítima, não sendo um. Ela de costas, fazendo que não havia percebido, como se não tivesse ainda notado a presença anônima vinda por trás, talvez para fingir estar surpreendida quando ele a tocasse. E tocou. Chegou lento, primeiro a mão direita nas costas, acariciando como quem poem mão em lenço de seda, e em alguns instantes os lábios já alcançavam o pescoço feminino e branco, depois de afastar os fios quase vermelhos de cabelos lisos e sujos, de faxina. Em alguns lapsos de tempo, já nua, sem saber por quem, sem saber com quem, os dois deitaram-se no amontoado de cobertores no chão – por improviso a cama – e as pernas femininas se abriram, o corpo por baixo, o suor junto com a saliva e os fluídos de baixo misturaram-se numa coisa só, num ritual de dança de estranhos, movimentos repetitivos de ida e vinda feito maquinaria de trem, no silêncio, entre o suspiro do respirar e o grito do gemido. Entre a carne e a solidão a dois. A sós, cada um em sua própria solidão.
– Tudo bem... pode ir embora agora, já fiz o que você quis. – Ela disse, enrolando uma toalha improvisada em volta do corpo, após o ato, numa tentativa quase falha de cobrir sua nudez.
Sem palavras e sem feições, ele então vestiu a calça jeans, já usada pelo terceiro dia, junto com a camiseta branca e a jaqueta preta, mesma do dia anterior. As botas marrons e o andar calmo e sem ginga, típico. Típico dos solitários. Solitários e ricos que vagam aos ventos. Deixou a outra metade em cima da mesa, trezentos e cinquenta reais.
– Até um dia desses. – Disse, já de partida, de costas para ela.
Não houve respostas, e nem era preciso. "Acho que não", ele entendeu apenas pelo olhar seco. Ele partiu e ela voltou à pia, continuou a lavar o resto de copos que estavam repousados. Avistou pela janela o vulto sem ginga no meio da multidão, andando de mãos no bolso e ficando cada vez mais longe, pequeno, pequeno. Não devia ter feito isso, pensou. Pensou e ignorou, fingiu não ter feito. Tenho que parar, pensou. Pensou e nunca parou. Nunca parou. Era ainda o ensaio. O ensaio.