
...Foi nesses dias, de Domingo de tarde, que nem chovem e nem fazem sol, nesses Domingos, que aconteceu...
I
Aqueles dois quartos vazios eram antes ocupados um por um homem, e outro por uma mulher, que naquele tempo não eram de fato homem e nem mulher; eram ainda menino e menina. Ele cheira passado, o quarto. Cheira um tempo que já se foi, e às vezes eu passo em frente à porta de entrada e não olho pro seu interior, talvez por já não me recordar absolutamente nada. E ainda se alguma vez o fizer, serão lembranças de coisas velhas, bem velhas, empoeiradas, que não têm mais utilidade nenhuma em minha vida e nem na vida de ninguém. Não me lembro de muita coisa, mas sei - ou penso talvez ter certeza - que lá dormiam um menino e uma menina.
Do lado da velha televisão quebrada da sala, tem algumas fotografias deles, do menino e da menina. As fotos, de tão velhas, já não conseguem mais fazer o que elas foram feitas pra fazer – Retratar algum momento distante, passado, através de uma pose ou um sorriso de alguém, o alguém que está estampado no papel, imóvel, olhando fixamente pra lente da máquina fotográfica, eternamente, eternamente -, e não mais me recordam o menino e a menina. O papel já está ficando com rachaduras e já está quase preto de tão amarelo. Esses antigos retratos me dão a estranha impressão de que naquele tempo tudo era amarelo, inclusive aqueles dois rostos em pose, do menino e da menina. Uma pequena mancha surgiu no canto inferior esquerdo, e depois a mancha amarela cobriu os pés do menino, e andando como um animal rastejante, depois de uns anos, a mancha já estava uniforme no papel, e os dois corpos - do menino e da menina -, pareciam agora vultos, vultos amarelos por entre uma fumaça amarela, por entre uma mancha. Os rostos estão quase indefinidos, e se não fosse pelo cabelo longo dela e pelo cabelo curto dele, eu não saberia dizer quem é quem. De qualquer forma, é por isso que já não passo horas olhando-as, as antigas fotografias, uma por uma. Elas estão velhas, velhas. De recordações só tenho o que fica na cabeça, e são coisas vagas. Não lembro mais da feição, nem de como eram os cabelos, nem de quase nada. Lembro que eram meninos e meninas, e que eu batia fotografias deles. Muitas fotografias.
Houve um tempo - antes das manchas no papel e antes do amarelo em todas as fotos - em que eu espalhava centenas de fotografias sobre minha cama e ficava jogado por entre todas elas, como se elas fossem água e eu estivesse nadando. Olhava uma por uma e tentava lembrar de como eu era feliz naquele tempo que a fotografia retratava. Nunca conseguia lembrar claramente, mas sabia que eu era feliz naquele tempo retratado. Só percebia o quanto eu era feliz depois que o tempo de fato passava, e é isso que sempre acontece. Só percebo o quanto era bom depois que passa. Mas tudo cresce, e esses meninos e meninas se vão. As crianças se vão e se transformam milagrosamente e tragicamente em homens e mulheres, todas elas. Não só essas minhas antigas crianças, mas todos os outros meninos e meninas. Se vão e viram homens e mulheres que geram outros meninos e meninas, e assim a roda vai girando e girando e girando e girando e girando e girando e girando e girando e girando e girando e girando...
Em frente à TV e às fotografias amarelas, tem um sofá marrom claro, de couro descascado, e é onde eu passo boa parte do dia, talvez lendo o jornal, ouvindo o pequeno rádio de pilha que eu carrego comigo o tempo todo, ou ainda fico só sentado, com a cabeça dela em meu colo, a cabeça grisalha e de pele enrugada que ela tem. Ela também já está com um bom tempo vivido, e nada mais é como era antes. Não me importo. Ela era bonita, antes. Ainda é bonita, mas é bonita de outro jeito agora. Nada mais é tão nítido em minha cabeça, mas lembro vagamente de seus longos cabelos negros, e a pele nem morena e nem branca que ela tinha. Talvez fosse de uma cor exata que a pele deve ter pra ser bonita. Os seios eram outra coisa desse jeito, no ponto certo, como se fosse alguma fruta madura em que eu pudesse pegar e me lambuzar todo sem medo de nada. As pernas talvez fossem mais brancas, um pouco diferente do resto do corpo, não tão diferentes, e eram assim por nunca terem sido expostas ao sol, pelo menos não muitas vezes. Na coxa havia diversos pelos pequenos, quase invisíveis, loiros, que se arrepiavam todos quando suas pernas eram acariciadas ou lambidas. Era bom, era bom. De qualquer forma, hoje não estão mais tão maduros assim, os peitos. Mas não me importo. Ainda são frutas maduras pra mim, e eu sei que por trás desses cabelos grisalhos, os antigos cabelos morenos ainda balançam com o vento e brilham expostos ao sol. Brilham. Brilham. Por trás desses peitos já gastos, o coração implorando por descanso, e a perna dos pelos não mais tão invisíveis, por trás de tudo isso ainda existe aquela fruta madura e aquele coração que disparava quando transávamos em pleno domingo à tarde. Tudo está bem ali onde estava. Só está velho, gasto e cansado agora. Mas está lá. No mesmo lugar de sempre.
Havia também alguns domingos em que nós costumávamos deitar na grama do parque, há muito tempo atrás - quando ainda tínhamos paciência pra essas coisas -, e olhávamos os velhinhos. “Você ainda vai me trazer no parque e deitar comigo na grama quando nós estivermos velhinhos velhinhos velhinhos?”, ela perguntava, não com essas palavras, mas eram palavras assim. Eu fazia que sim e nos abraçávamos, pensávamos em como seriam nossos filhos, e em como seria nossa casa e todas essas coisas que os casais costumam pensar. Num dia desses, de parque, comprei pra ela uma rosa, e em três dias a rosa murchou e ficou toda preta, soltando líquidos esverdeados por entre as pétalas mortas. Ela me perguntou como iríamos cuidar de filhos se mal conseguíamos cuidar de uma rosa. Falei que das rosas ninguém sabe cuidar, e isso começa pelo ato de apanhá-las de onde elas devem viver naturalmente e necessariamente, junto com todas as outras rosas, pra que não morram depois de três dias em uma estante de um quarto qualquer, solitárias, solitárias, solitárias. Cuidar de rosas é na verdade nunca apanhá-las. Nunca.
Hoje já não a presenteio com flores, a graça disso acabou, e eu e ela estamos cansados de ter que, toda vez, depois de três dias, recolher os restos mortais da flor de cima da estante do quarto.
De qualquer forma, eles já se foram, o menino e a menina. Já faz um tempo que se foram, que cresceram, e no começo era insuportável, quase impossível viver nessa solidão toda, embora não fosse ainda uma solidão por completo. Era solidão ao lado dela, e eles já vieram.
II
De vez em quando eu acordo cedo pra ir comprar pão na padaria aqui do bairro, na rua de trás. Vivo dessa taxa que eles dão pra quem fica velho. Taxa que o governo dá, seja lá o que isso for, governo. O que importa é que eu ganho todo fim de mês. Eu e ela ganhamos, e é o que nos ajudou a comprar o sofá, a TV, a cama, a máquina de fotografia – hoje inútil – e várias outras coisas que não são tão necessárias assim pra nossa sobrevivência.
Já não tenho amigos. Todos eles se foram ou foram sumindo conforme o tempo foi passando, e isso é uma coisa natural. Amigos irem embora, não pra morte, mas pra algum outro lugar, é uma coisa natural. Cada um segue a vida, ou o que eles chamam de vida, embora eu também não saiba se posso chamar a minha disso. O que eu quero dizer é que eles se vão, assim como tudo se vai, e no fim só nos resta essa coisa que eu costumo chamar de amor, mesmo eu não gostando desse nome, pois no fundo no fundo todos já sabem que hoje em dia usam esse nome em vão, amor. Antes não. Antes era sério, mas hoje não. É em vão, é normal, é natural.
Os Domingos de tarde mudaram. Esses domingos de tarde, aqueles mesmos Domingos em quais eu costumava transar ou deitar na grama do parque, esses domingos de tarde mudaram. Não tenho mais aventuras e nem tenho nada de interessante nesses Domigos, mas talvez seja por isso que eles são meus melhores dias. Tenho aquela paz, aquele clima de Domingo, clima que eu não sei explicar, mas mesmo que eu dormisse quarenta anos e acordasse num Domingo eu saberia que era Domingo, sem calendário e sem nada. Aquele clima. Clima bom. Gosto mais dos que não tem sol, e nem lua. A lua é boa de noite, mas de noite eu durmo, e não a vejo com muita frequência. Então gosto dos dias cinzas, dos que não são nem frio nem quente, nem claro nem escuro. Domingos de tarde, desses que nem chovem e nem fazem sol. Foi nesses dias, de Domingo de tarde, que nem chovem e nem fazem sol, nesses Domingos, que aconteceu.
III
Eu estava deitado no sofá, com os pés num braço do sofá e a cabeça no outro braço. Estava lendo o jornal, e ouvi de longe.
Barulho de campainha, passos em direção à porta, fechadura gira, porta abre.
“Ah, se não são vocês! Está tudo bem? Entra, entra!” Ela disse, minha velha. Houve algumas risadas e uns abraços, por parte deles, do menino e da menina. Ouvi alguns risos de criança, mas talvez fosse meu cérebro tendo alguma alucinação, o que estava se tornando comum. No dia anterior tinha visto - pensado ver - um gato amarelo pulando em minha cama e dizendo “Você vai morrer, você vai morrer, você vai morrer...” infinitamente. Infinitamente. Infinitamente. Mas não dei importância. Conforme fui chegando perto ele foi se desfazendo feito areia de praia e eu deitei e dormi.
Uma voz diferente, masculina, grave, em minhas costas.
- Pai, tá dormindo?
Era o Márcio. Menino que já não era menino. Meu menino, meu antigo menino. Ele já estava grande, alto, maior que eu. Tinha alguns pelos grossos saindo de seu rosto, e eu pensei comigo “Ele está com mais barba que eu”, e vi que a dele era preta, e a minha branca. A memória é vaga, mas talvez houvesse tido um abraço forte naquele momento de reencontro, um beijo no rosto, um “Mas como você está diferente”, e todas essas coisas assim.
Depois ouvi uma voz por trás. Voz doce, feminina. Não era minha velha, e deduzi que fosse a menina. Minha menina, minha antiga menina.
- Oi pai. Sou eu, Alice.
Alice. Alice. Alice. Era minha menina. Pequena antiga Alice. Ela tinha seios agora. Seios. Mulheres têm seios, mas ela era ainda minha menina. Mulher pro mundo, menina pra mim. Complicado de explicar, mas eu entendo facilmente. Era parecida com a mãe. Bem parecida. Todos os detalhes coincidiam, e eu fiquei feliz duas vezes. Uma por ver a menina, e outra por rever minha velha, como na época em que ela não era velha. Duas vezes. Feliz.
Mas o que mais me assustou, ou deixou mais feliz ainda, não sei bem. Foi o menino e a menina de verdade. Não o meu menino e menina. Menino e menina deles, do menino e da menina. Pode ser que esteja complicado de entender, mas eram os filhos dos meus filhos; meus netos. Menino era da menina. Menina era do menino. Eles eram bem pequenos, baixinhos, características típicas da minha velha, incrivelmente todos se pareciam com ela. Cabelos negros, peles brancas, e tudo mais. Me levantei do sofá pra ver os pequenos, e me deram abraços tímidos. Foram correr pela casa toda. Talvez o menino tenha corrido de braços abertos, imitando um avião e fazendo “vrum vrum” com a boca, numa tentativa de fazer o som de um aeroplano. Não sei ao certo se sonhei ou se de fato aconteceu. De qualquer forma, a menina era mais tímida. Não tão tímida, só um pouco, no começo. Depois a timidez passou, e ela até me ajudou a fazer panquecas, com a mãozinha toda melecada de mel e açúcar e essas coisas assim. Também lemos um livro, um pouco mais tarde. Era infantil, e eu lia alto pra que os dois ouvissem. Sentaram os dois em meu colo, cada um em uma perna, no sofá descascado. Foi bom.
Passamos o dia assim, Domingo de tarde. Ele estava cinza, sem sol e sem lua, nem frio e nem calor. Perfeito do jeito que os Domingos devem ser.
Faz algum tempo que eles não vêm de novo, os meninos e as meninas. Mas talvez eles tenham vindo, e eu tenha esquecido. Ando esquecendo muitas coisas ultimamente. Uma vez ouvi que eu tinha uma tal coisa na cabeça, Alzheimer. Nem imagino o que isso seja, mas sei que eu levo como uma coisa boa. Há tempos, agora, não vejo meu menino e minha menina, nem o menino e a menina deles. Aqueles dois quartos vazios agora já têm duas camas. Uma cama em cada um, uma rosa e uma azul, que é pras crianças, quando elas quiserem dormir por aqui. Talvez eles já tenham dormido algumas vezes, mas não me lembro. Talvez eu tenha sonhado, ou foi só coisa de minha cabeça. Sei que estou velho, farto. Essas coisas acontecem com velhos, e o lado bom disso tudo é que eu me surpreendo todas as vezes, sem exceção de nenhuma. Vejo os meninos e as meninas e os vejo como se fosse a primeira vez. Como se eu lesse o mesmo livro milhares de vezes e me impressionasse com o final em todas elas, de uma forma como se eu nunca tivesse lido antes. E é assim, cada vez que eles se vão. Cada vez sinto que se passa uma eternidade pra que eles venham de novo, e eu não me importo. A velha fica dizendo que todo fim de semana eles vêm, mas eu não acredito. Talvez ela esteja alucinada, talvez seja coisa da cabeça dela. Mas eu não. Eu sei do menino e da menina. Eu sei. Ela não. Eu sei.